Durante décadas, a permanência de uma fortuna entre gerações foi tratada, no Brasil, como resultado de sorte, talento individual ou momento de mercado, quando, na verdade, costuma ser resultado de decisões estruturais tomadas muito antes de qualquer crise aparecer, na visão de Rodrigo Gonçalves Pimentel, filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel e advogado. Esse entendimento vem mudando. Famílias que antes discutiam sucessão apenas quando um patriarca adoecia agora tratam o tema como parte do planejamento contínuo do negócio, ao lado de orçamento e expansão.
O movimento acompanha uma transformação mais ampla no mercado brasileiro, em que segurança jurídica de longo prazo passa a valer tanto quanto performance de curto prazo. Fortuna que não se planeja tende a se comportar como qualquer recurso sem manutenção: se deteriora, ainda que lentamente. Escritórios especializados em planejamento sucessório relatam crescimento constante na procura por esse tipo de estruturação nos últimos anos, motivado tanto por casos de sucesso divulgados quanto por histórias de fracasso que circulam entre empresários do mesmo setor.
O que mudou na forma como as famílias brasileiras pensam em herança?
Até pouco tempo, herança era um evento: acontecia na morte de alguém e a família lidava com as consequências depois. Hoje, cada vez mais escritórios de planejamento relatam famílias que buscam orientação décadas antes de qualquer expectativa de sucessão, motivadas por casos de conhecidos que perderam patrimônios significativos em inventários longos e disputados.

Uma família paulista, por exemplo, levou nove anos para concluir o inventário de um patrimônio de médio porte, período em que imóveis ficaram sem manutenção e uma empresa operacional perdeu contratos por falta de decisão rápida sobre investimentos. Como comenta Rodrigo Gonçalves Pimentel, casos assim, cada vez mais conhecidos, funcionam como alerta silencioso para outras famílias: o custo de não planejar raramente aparece no presente, mas cobra caro no futuro.
A passagem de fortunas de sorte para engenharia
Chamar de engenharia não é um exagero retórico. Um patrimônio bem planejado envolve escolha de veículos jurídicos, definição de regras de governança, políticas de distribuição de resultados e cláusulas de proteção, cada peça desenhada para se complementar.
No entendimento de Rodrigo Gonçalves Pimentel, tratar patrimônio como engenharia significa aceitar que ele exige revisão periódica e cuidadosa, assim como qualquer estrutura técnica precisa de manutenção. Uma holding redigida para uma família de três herdeiros pode não funcionar bem quando essa mesma família chega a doze descendentes na geração seguinte, cada um com interesses e necessidades diferentes.
Por que patrimônio que não se planeja tende a se dissolver?
A dissolução raramente acontece de uma vez. Ela ocorre em pequenas perdas sucessivas, mas significativas: um imposto pago a mais por falta de estrutura, uma disputa que consome recursos em honorários, uma oportunidade de investimento perdida porque ninguém tinha autoridade clara para decidir. E o que resta de um patrimônio depois de vinte anos de pequenas perdas somadas?
Como avalia Rodrigo Gonçalves Pimentel, a resposta costuma ser desapontadora até para famílias que nunca enfrentaram uma crise dramática: o patrimônio simplesmente encolhe, sem que exista um único evento a que se possa atribuir a culpa. A ausência de planejamento não provoca colapsos visíveis. Provoca erosão silenciosa, o que a torna ainda mais perigosa, porque raramente é percebida a tempo.
Como a terceira geração decide se um legado continua ou termina?
A terceira geração ocupa um lugar particular nessa história. Diferente da segunda, que ainda convive com a memória viva do fundador, a terceira geração herda apenas regras, não vivências. Se essas regras forem claras e bem construídas, a fortuna continua fazendo sentido mesmo para quem não estava ali vendo o negócio nascer.
Se não forem, a terceira geração tende a tratar o patrimônio como recurso a ser consumido, não como projeto a ser continuado, simplesmente porque nunca lhe foi ensinada a diferença entre as duas coisas. Ensinar essa diferença, na prática, significa envolver os mais jovens em decisões reais desde cedo, ainda que pequenas, em vez de mantê-los afastados da gestão até o dia em que precisarem assumi-la por completo, sem qualquer experiência prévia.
O real significado de riqueza que atravessa gerações
Riqueza multigeracional não é o valor que consta em um balanço em determinado ano; é a capacidade de uma estrutura de continuar fazendo sentido para pessoas que ainda não nasceram quando ela foi criada. Rodrigo Gonçalves Pimentel observa que esse tipo de resultado nunca é acidental. É consequência de decisões tomadas, revisadas e ensinadas, geração após geração, por famílias que decidiram tratar patrimônio como projeto contínuo, e não como sorte que um dia pode, ou não, se repetir.
