Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos, evidencia que, entre os muitos impactos duradouros deixados pela pandemia de Covid-19, um dos menos debatidos permanece sendo o ambiental. O uso massivo de equipamentos de proteção individual em todo o mundo gerou um volume extraordinário de resíduos plásticos que sobrecarregou sistemas de gestão já fragilizados e introduziu no ambiente quantidades expressivas de materiais de difícil degradação.
Máscaras descartáveis, luvas, aventais e testes rápidos foram produzidos e descartados em escala sem precedentes, e as consequências desse evento para os ecossistemas ainda estão sendo dimensionadas. Neste artigo, você vai entender o que essa crise silenciosa representa e o que precisa ser feito para mitigá-la. Confira!
A escala do problema e os materiais envolvidos
Estimativas internacionais indicam que bilhões de máscaras descartáveis foram produzidas e utilizadas globalmente durante o período mais intenso da pandemia. Compostas predominantemente por polipropileno, um polímero plástico de alta resistência à degradação, essas máscaras podem permanecer no ambiente por centenas de anos quando descartadas inadequadamente. No Brasil, o descarte irregular de máscaras em vias públicas, calçadas, praias e corpos d’água tornou-se um fenômeno visível e amplamente documentado durante os anos de maior intensidade da crise sanitária.
Conforme ressalta Marcello José Abbud, o problema não se limita às máscaras. Isso porque luvas de látex e nitrila, aventais de TNT, embalagens plásticas de testes rápidos e frascos de álcool gel compõem um conjunto de resíduos gerado em volumes muito superiores aos que os sistemas municipais de coleta estavam dimensionados para receber. A classificação desses materiais como resíduos de serviços de saúde em contextos hospitalares tornou sua gestão ainda mais complexa e custosa para os municípios brasileiros.

Os impactos sobre ecossistemas aquáticos e terrestres
Os resíduos de EPI descartados inadequadamente no ambiente seguem o mesmo percurso dos demais plásticos: fragmentam-se progressivamente em microplásticos que se dispersam pelo solo, pelos sistemas hídricos e pela cadeia alimentar. Estudos realizados em praias e rios de diferentes países já identificaram concentrações elevadas de fragmentos de máscaras e luvas em sedimentos e em organismos aquáticos, indicando que a contaminação está em curso em escala global e continuará se agravando nas próximas décadas sem ações coordenadas de mitigação.
Na avaliação de Marcello José Abbud, o impacto sobre os ecossistemas aquáticos é especialmente preocupante porque os polímeros utilizados nos EPIs carregam aditivos químicos que se dissolvem na água e podem interferir no sistema endócrino de organismos aquáticos. Com efeito, a combinação entre fragmentação física e liberação química torna esses resíduos uma fonte de contaminação ambiental que ultrapassa amplamente o impacto visual imediato do descarte irregular nas cidades.
Soluções estruturais para um problema que veio para ficar
O enfrentamento do legado ambiental dos EPIs passa por soluções que atuam em diferentes pontos da cadeia de geração e descarte. A estruturação de pontos de coleta específicos para máscaras e luvas usadas em locais de alto fluxo, como farmácias, supermercados e terminais de transporte público, é uma medida de baixo custo e impacto relevante para reduzir o descarte irregular nas vias públicas e nos corpos d’água urbanos.
Segundo Marcello José Abbud, no médio e longo prazo a solução estrutural passa pelo desenvolvimento de EPIs com materiais mais sustentáveis e pela ampliação da capacidade de tratamento de resíduos de serviços de saúde nos municípios brasileiros. A pandemia evidenciou uma fragilidade sistêmica que precisa ser corrigida antes que o próximo evento de saúde pública de grande escala sobrecarregue novamente sistemas que ainda não foram adequadamente reforçados para lidar com picos extraordinários de geração de resíduos especiais.
