Recriação da voz do ator, morto em 2016, gera debate sobre limites éticos do uso de IA no entretenimento.
A Netflix confirmou o uso de inteligência artificial para recriar a voz de um ator já falecido em uma nova produção, reacendendo uma discussão que já não é nova no setor de entretenimento: até onde vai o limite ético do uso dessa tecnologia para trazer de volta vozes e imagens de pessoas que já morreram? A plataforma de streaming anunciou que vai usar inteligência artificial para recriar a voz do falecido ator Gene Wilder em um novo reality show ambientado no universo de Willy Wonka e a Fábrica de Chocolate. A seguir, entenda como funciona a tecnologia usada e qual foi a reação do público e da família do ator. BRA 1
Como a Netflix recriou a voz do ator
O programa, batizado de “Wonka’s The Golden Ticket”, terá uma versão da voz de Wilder gerada por inteligência artificial, já que o ator, que interpretou o excêntrico chocolateiro no filme de 1971, morreu em 2016. Para viabilizar a recriação, a Netflix contratou a empresa de IA ElevenLabs, especializada em clonagem e síntese de voz. A proposta do novo reality é tentar recriar, ao menos na aparência e na sensação, a história do clássico livro infantil de Roald Dahl, com participantes enfrentando uma série de tentações e desafios inspirados no universo de Wonka para disputar um prêmio final.
Um ponto que chamou atenção na repercussão do anúncio foi a posição da família do ator diante do uso da tecnologia. A esposa de Wilder, Karen B. Wilder, afirmou que ficou encantada com a homenagem, e a Netflix reforçou que a voz do ator será usada com o consentimento da família dele. Ainda assim, a autorização familiar não foi suficiente para conter as críticas que surgiram nas redes sociais assim que a notícia veio a público.
A reação do público e os precedentes no setor
A repercussão negativa apareceu rapidamente entre fãs do ator e do filme original. Muitos usuários nas redes sociais chamaram a iniciativa de desrespeitosa e artificial, e parte das críticas comparou a proposta ao desastroso evento “Willy’s Chocolate Experience”, ocorrido em Glasgow em 2024 e que ficou famoso por prometer muito e entregar pouco ao público que compareceu.
O caso de Gene Wilder não é isolado dentro da indústria do entretenimento. Esse anúncio acontece depois de outras tentativas de trazer de volta vozes de estrelas do entretenimento usando inteligência artificial, como em outubro de 2024, quando o filho de Michael Parkinson defendeu o uso da tecnologia para recriar a voz do apresentador de talk show em um novo podcast de entrevistas. Outros estúdios, como a Disney, também já recorreram à IA para recriar vozes de atores famosos em produções anteriores.
O debate maior por trás da tecnologia
Esses episódios repetidos mostram que o uso de inteligência artificial para recriar vozes e imagens de artistas falecidos tende a se tornar cada vez mais comum, especialmente em franquias com forte apelo nostálgico. Ao mesmo tempo, cresce entre especialistas em ética digital e direitos autorais a preocupação sobre os limites desse tipo de recriação, principalmente quando ela envolve figuras públicas que não podem mais opinar sobre como sua imagem e voz são utilizadas comercialmente.
Do ponto de vista técnico, ferramentas como a da ElevenLabs vêm evoluindo rapidamente na capacidade de reproduzir nuances de entonação, sotaque e timbre com base em gravações antigas, o que torna cada vez mais difícil para o público distinguir uma voz sintética de uma gravação original. Esse avanço amplia as possibilidades criativas dos estúdios, mas também aumenta a responsabilidade sobre como e quando essas vozes recriadas devem ser usadas, sobretudo em produções voltadas ao entretenimento de massa como reality shows.
O caso de “Wonka’s The Golden Ticket” deve funcionar como um novo teste de repercussão pública para esse tipo de uso da inteligência artificial. Mesmo com a autorização da família de Gene Wilder, a reação nas redes sociais mostra que parte considerável do público ainda vê com desconfiança esse tipo de recriação, especialmente quando aplicada a uma figura tão associada a um papel específico e afetivo, como o de Willy Wonka. A repercussão do programa, quando estrear, deve ajudar a indicar se esse modelo de produção tende a se consolidar ou a enfrentar resistência crescente do público.
Fontes consultadas:
