O uso de inteligência artificial para criar personagens que se apresentam como médicos e outros profissionais de saúde entrou no radar do governo federal. A Advocacia-Geral da União (AGU) notificou o YouTube e solicitou a remoção ou a identificação clara de vídeos que simulam especialistas para divulgar promessas de cura, tratamentos sem comprovação científica e produtos ou serviços pagos.
A notificação foi enviada pela AGU em 4 de setembro de 2026, com prazo de 72 horas para que a plataforma adotasse providências. O Ministério da Saúde divulgou a medida em 8 de setembro, após uma análise do programa Saúde com Ciência identificar 97 perfis envolvidos na publicação desse tipo de conteúdo. O caso amplia o debate sobre os riscos de vídeos sintéticos apresentados ao público como se fossem orientações profissionais legítimas.
Como os vídeos com inteligência artificial simulam autoridade
Segundo o Ministério da Saúde, os materiais analisados utilizavam avatares com aparência humana, qualificações profissionais fictícias e linguagem alarmista. A combinação desses elementos pode criar uma falsa impressão de autoridade e levar o usuário a acreditar que está diante de um médico ou de outro especialista habilitado.
Além de pedir a retirada dos conteúdos identificados, a AGU orientou o YouTube a avaliar outros vídeos e canais mencionados no relatório. Como alternativa à indisponibilização, a plataforma poderia adotar medidas de rotulagem e contextualização, deixando explícito que os personagens apresentados foram produzidos artificialmente. A solicitação também reforça a necessidade de transparência quando a aparência realista de um vídeo pode dificultar a percepção de que se trata de uma criação digital.
Riscos para quem busca tratamentos na internet
O Ministério da Saúde informou que parte dos conteúdos era direcionada à população idosa. Entre os riscos apontados estão a automedicação, o adiamento da procura por atendimento e a substituição de tratamentos indicados por profissionais habilitados. Promessas de resultados rápidos ou de curas milagrosas podem ser especialmente perigosas quando associadas a medicamentos, suplementos ou terapias que não passaram por avaliação adequada.
O alerta também interessa a quem pesquisa na internet informações sobre emagrecimento, rejuvenescimento, hormônios, procedimentos estéticos e produtos com supostos efeitos terapêuticos. Essa relação com o setor de estética é uma abordagem editorial a partir dos riscos gerais descritos pelas autoridades, já que o comunicado oficial trata de desinformação em saúde de forma ampla, sem restringir os casos a esse mercado.
Em orientação sobre publicidade e consumo, a Anvisa recomenda cautela diante de indicações de medicamentos e suplementos feitas por pessoas que não comprovam habilitação ou respaldo técnico. A agência alerta que a aparência de credibilidade de quem recomenda um produto não substitui a avaliação das informações oficiais, da regularização e da segurança para cada caso.
O que verificar antes de seguir uma recomendação
Uma das primeiras medidas é confirmar se o profissional apresentado existe e possui habilitação compatível com o serviço ou tratamento divulgado. Também é importante desconfiar de resultados garantidos, transformações em prazo muito curto, depoimentos usados como prova definitiva e mensagens que tentam criar urgência para estimular uma compra ou procedimento.
Para procedimentos estéticos, a Anvisa, em sua orientação sobre procedimento seguro, destaca a importância de buscar locais autorizados, produtos aprovados e profissionais qualificados. A verificação deve ocorrer antes do agendamento, mesmo quando o conteúdo é apresentado por um avatar convincente ou por um vídeo com aparência semelhante à de uma consulta.
A própria Anvisa também publicou um alerta sobre personagens criados por inteligência artificial que se apresentam como gurus ou xamãs. A recomendação reforça que conteúdos visualmente realistas não constituem evidência científica nem substituem uma avaliação individual feita por um profissional habilitado.
Transparência passa a ser parte da segurança digital
A iniciativa envolvendo AGU, Ministério da Saúde e YouTube mostra que o problema não está apenas na existência de ferramentas capazes de produzir imagens e vozes artificiais. A questão central é o uso desses recursos para fabricar autoridade, promover produtos e influenciar decisões relacionadas à saúde sem deixar clara a natureza sintética do material.
Até que o usuário consiga identificar com facilidade quando um personagem é artificial, a orientação mais segura é tratar promessas de tratamento encontradas nas redes como informação que precisa ser verificada. Consultar profissionais habilitados, conferir a regularização de produtos e buscar fontes oficiais são atitudes que reduzem o risco de seguir recomendações enganosas, especialmente em temas de saúde e estética.
