Para colecionadoras de objetos antigos, como Cristiane Ruon dos Santos, poucos exemplos são tão ilustrativos quanto a máquina de costura. Patenteada por Isaac Singer em 1851, ela deixou as fábricas, entrou nas casas e, mais de um século depois, passou a ocupar estantes de colecionadores. A trajetória se repete com outros objetos do cotidiano que, depois de perderem sua função, ganharam valor histórico e afetivo.
Máquinas de costura manuais e a pedal
As primeiras máquinas domésticas funcionavam com manivela ou pedal, sem motor elétrico. Estruturas de ferro fundido, gabinetes de madeira e decalques dourados com motivos florais tornaram esses modelos objetos de decoração tanto quanto ferramentas de trabalho. Em muitas famílias, a máquina era um bem de valor, comprada a prestação e passada de mãe para filha, o que explica a quantidade de exemplares preservados até hoje.
Hoje, colecionadores observam o número de série, que permite identificar o ano de fabricação em muitos modelos, além do estado dos decalques e do funcionamento do mecanismo. Em acervos como os que aproximam Cristiane Ruon dos Santos das antiguidades, máquinas que ainda costuram, com gabinete original e acessórios completos, tendem a ser as mais procuradas. Modelos com gabinete de gavetas laterais, típicos das primeiras décadas do século XX, também costumam chamar atenção pela marcenaria.
Ferros de passar a brasa
Antes da popularização do ferro elétrico ao longo do século XX, passar roupa exigia carvão em brasa. O ferro tinha um compartimento interno para as brasas, tampa articulada e, em muitos modelos, uma pequena chaminé para liberar a fumaça. O cabo de madeira protegia a mão do calor. Controlar a temperatura dependia de experiência: brasa demais queimava o tecido, brasa de menos deixava vincos.
Encontrados com frequência em feiras e sítios antigos, esses ferros variam em tamanho, formato e ornamentação. No universo que aproxima Cristiane Ruon dos Santos da costura e das antiguidades, eles funcionam como registro de uma rotina doméstica pesada, que ocupava horas de trabalho semanal.

Latas de mantimentos e embalagens litografadas
Biscoitos, chás, balas e café eram vendidos em latas decoradas por litografia, técnica de impressão que permitia aplicar imagens coloridas diretamente sobre a folha de metal. Muitas famílias guardavam as latas vazias para armazenar botões, linhas e documentos, o que ajudou a preservá-las.
O interesse de colecionadores recai sobre ilustrações, marcas que deixaram de existir e embalagens comemorativas. Ferrugem, amassados e perda de pintura reduzem o valor, enquanto latas com cores vivas e tampas originais alcançam preços mais altos. Latas de marcas regionais, produzidas em menor quantidade, também despertam interesse por sua raridade e pelo registro que oferecem da história do comércio local.
Rádios de válvula
Durante décadas, o rádio foi o centro da sala de estar. Os modelos de válvula, dominantes até a popularização dos aparelhos transistorizados, vinham em gabinetes de madeira ou baquelite, com dial iluminado e grandes alto-falantes. Ouvir notícias, novelas e transmissões esportivas reunia a família em torno do aparelho, que ocupava lugar de destaque na decoração.
Colecionadores valorizam tanto a aparência quanto o funcionamento. Restaurar um rádio de válvula exige conhecimento técnico, já que componentes envelhecidos podem representar risco elétrico. Por isso, aparelhos originais e bem conservados, mesmo sem funcionar, mantêm interesse no mercado. Gabinetes sem rachaduras, dial legível e botões originais são os primeiros pontos observados em uma avaliação.
O que transforma um objeto comum em peça de coleção?
Três fatores costumam pesar. O primeiro é a obsolescência: quando um objeto sai de uso, os exemplares restantes se tornam finitos. O segundo é a qualidade de fabricação, já que peças feitas para durar sobrevivem melhor ao tempo. O terceiro é a memória que carregam de hábitos e épocas específicas.
Na perspectiva de quem, como Cristiane Ruon dos Santos, se interessa por objetos antigos, o valor dessas peças vai além do preço. Cada uma documenta como as pessoas cozinhavam, costuravam, se informavam e organizavam a casa em diferentes épocas, e preservá-las mantém acessível uma parte concreta da vida cotidiana.
