A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, com atuação voltada ao apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, observa que “casa de passagem” e “casa abrigo” costumam ser tratadas como sinônimos, quando, na verdade, atendem a situações de risco bastante diferentes.
Entender essa diferença com clareza ajuda tanto quem precisa buscar esse tipo de serviço quanto quem está tentando orientar alguém em situação de risco sobre qual caminho procurar primeiro, evitando confusão desnecessária num momento em que cada decisão importa muito.
O que é uma casa de passagem?
A casa de passagem recebe mulheres que precisam deixar de forma imediata o ambiente de risco, mas cuja situação ainda não envolve risco de morte iminente, segundo a avaliação técnica realizada. O acolhimento costuma ser mais curto, voltado a organizar os próximos passos: documentação, encaminhamentos e um plano prático para os dias seguintes, sem exigir uma ruptura completa e imediata com toda a rede social anterior. Muitas mulheres conseguem, a partir daí, reorganizar moradia, documentos e fonte de renda própria em algumas poucas semanas.
O endereço, nesses casos, não costuma ser mantido em sigilo absoluto, já que o nível de perigo avaliado é geralmente menor do que o que justificaria uma medida mais restritiva de proteção, embora a discrição ainda seja recomendada.
O que é uma casa abrigo, e por que o sigilo é essencial?
A casa abrigo, por outro lado, é voltada a quadros de risco muito mais grave, muitas vezes com ameaça concreta e imediata à vida da mulher e dos filhos. Taiza Tosatt Eleoterio destaca que o endereço sigiloso é o que diferencia estruturalmente esse serviço: nem familiares próximos costumam ter acesso à localização, justamente para reduzir ao máximo a chance de o agressor localizar a mulher e colocar em risco toda a rede de proteção construída.
A permanência tende a ser mais longa, e o acompanhamento mais intenso, incluindo suporte psicológico, jurídico e social voltado a reconstruir uma vida completamente separada do ambiente anterior de convivência, muitas vezes numa cidade diferente daquela onde a violência acontecia. Esse processo de reintegração pode incluir realocação profissional completa, transferência escolar dos filhos para outra rede de ensino e reorganização total de documentos pessoais e familiares.
Como se decide qual desses espaços atende a cada caso?
A definição de qual serviço é mais adequado costuma partir de uma avaliação de risco criteriosa feita por profissionais treinados da rede de proteção, geralmente na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher ou em um Centro de Referência de Assistência Social próximo da residência da mulher.
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que essa avaliação não depende de a mulher já saber, com clareza e precisão, o nível de perigo que enfrenta: parte do papel desses serviços é justamente ajudar a nomear e dimensionar um risco que, de dentro da relação, muitas vezes parece maior ou menor do que realmente é, distorcido pelo próprio medo ou pela naturalização gradual da violência.
Nenhum dos dois é “melhor”, são respostas a riscos diferentes
Comparar os dois serviços como se um fosse superior ao outro simplesmente não faz sentido algum: cada um foi desenhado para um nível específico de risco, e usar o serviço errado pode tanto expor a mulher a um perigo desnecessário quanto restringir sua vida mais do que a situação realmente exige naquele momento.
Para Taiza Tosatt Eleoterio, o mais importante é que a mulher saiba que esses dois caminhos existem e que buscar orientação inicial, mesmo sem certeza sobre qual deles se aplica ao seu caso específico, já é um passo suficiente para começar a receber a proteção adequada à sua situação particular.
